Voltar ao essencial: uma abordagem cética para largar o smartphone
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Se me perguntassem há dez anos o que eu achava do meu telemóvel, a resposta seria clara: “Adoro-o!” E talvez até retrucasse: “Como é que me fazes uma pergunta dessas?”
Em 2015, o mundo parecia mais simples e leve. Barack Obama ocupava a presidência dos Estados Unidos, o tema “Uptown Funk” de Mark Ronson com Bruno Mars liderava as tabelas musicais, e eu andava com um elegante iPhone 6 no bolso. Avançando até 2025, já chegámos ao iPhone 16 e, apesar de todos sabermos o rumo que o mundo tomou, confesso que escondo o meu telemóvel de mim próprio diariamente, só para tentar sentir algo mais genuíno.
Foi esse estado de cansaço digital que me levou ao Light Phone, um dispositivo minimalista que promete libertar-nos dos feeds infinitos e das notificações constantes. A terceira geração do aparelho, lançada no final de março, propõe uma reavaliação radical do que deve ser um smartphone: em vez de nos distrair, a ideia é focar-se nas ferramentas essenciais para viver no mundo digital — como chamadas e calendário. Sem navegador, loja de aplicações ou qualquer tipo de entretenimento, nem sequer um jogo. O Light Phone 3 é, intencionalmente, aborrecido — mas útil. Pelo menos é assim que nos é apresentado, numa era em que muitos sentem saudades de um tempo em que não éramos tão dependentes da tecnologia.
Tive recentemente a oportunidade de visitar o ateliê de Joe Hollier e Kaiwei Tang, criadores do Light Phone e fundadores da empresa Light, sediada no Brooklyn, Nova Iorque. Receberam-me para explicar o processo de desenvolvimento do novo modelo. Já me tinham enviado o dispositivo para testar previamente e, apesar de adorar o conceito, tive imensa dificuldade em desligar-me do meu iPhone — um aparelho que, aliás, odeio. Mas como largar as dezenas de aplicações que uso para trabalhar e manter contacto com a família? Como passar o dia sem as playlists personalizadas do Spotify? E o que seria do meu cérebro sem a possibilidade de pesquisar no Google todas as dúvidas que me surgem do nada?
“Quando chegas ao ponto de pegar no Light Phone pela quinta vez e percebes que ele não faz nada, é aí que tens o teu primeiro momento verdadeiramente transformador com o Light. Ficas a pensar: ‘E agora?’”, contou-me Hollier.
Atualmente, cerca de 90% dos americanos têm um smartphone, e diria que muitos já ultrapassaram o ponto de retorno no que toca à vida hiperconectada. Para certos grupos — como pais, profissionais de informação ou fanáticos do Spotify — viver sem um smartphone parece impossível. Para outros, é apenas uma grande chatice. Mas abandonar o smartphone é uma forma de libertar tempo livre e recuperar a atenção, o que tem levado à criação de uma nova tendência: dispositivos desenvolvidos especificamente para preencher o vazio entre os telemóveis “burros” do passado e um futuro em que a tecnologia seja usada com mais intenção.
Este movimento vai ganhando força à medida que cresce o cansaço em relação ao digital. Não se trata de nostalgia pura e simples, mas sim de uma vontade de recuperar o controlo sobre o tempo, a concentração e até sobre a própria identidade. O Light Phone 3 pode não ser a solução ideal para todos, mas representa um sinal claro de que há quem esteja disposto a reavaliar a relação com a tecnologia — e talvez até a redescobrir o silêncio e a presença no momento.